segunda-feira, 18 de agosto de 2008

"Cinema é cachoeira..."



Não sei se é sempre assim, mas sentir vontade de escrever não significa necessariamente ter um assunto a tratar. É simplesmente aquela sensação boa de rabiscar papel que só quem já sentiu entende. E eu quando sinto vontade de tirar da bolsa o caderno e o lápis, quase sempre não tenho um assunto específico sobre o qual desejo falar. E eu não vou ser mais uma a versar sobre a falta de assunto, pois, se tem ass
unto mais chato, é a falta dele!
O que eu sei é que é só olhar a folha em branco e sentir o lápis na mão e eu penso em cinema. Como assim? Pois é, eu também me faço essa pergunta. Não quero escrever um roteiro, um conto, um diálogo... pois se até agora não sei do que estou falando! Qual é então a relação entre cinema e palavra se o cinema são as tais “imagens em movimento” dentro da “sala escura” daqueles irmãos franceses?

É como se o papel em branco fosse uma tela e minha mente o projetor. E começam a surgir cenas de todos os meus filmes preferidos: lembro de Ginger Rogers dançando com Fred Astaire ao som
de “Cheeck to Cheeck”[1], Anna Karina cantando “Jamais je ne t´ai dit qui je t´amerais toujours’’ para Belmondo[2], Audrey Hepburn caminhando pela 5th Avenue em direção a Tiffany´s[3], Bernadette Lafont sentada na cama escutando Edith Piaf[4], os olhares de Gelsomina[5], Bogart e Bergman despedindo-se no aeroporto[6], Anita Ekberg a banhar-se na Fontana di Trevi[7], Marina Hans e Jean Louis Coulloc´h correndo na chuva[8], Julie Delpy em sua interpretação de Nina Simone[9], Jean Seberg vendendo jornais na Champs-Élysées [10]... enfim, incontáveis cenas que nos marcam de forma tão intensa que permanecem imperecíveis na memória (parafraseando Adélia).
Mas, como descrever as mesmas emoções que se sente quando essas mesmas imagens estão se movendo na tela? Como traduzir em palavras o que já foi traduzido em imagens? A impressão que se tem é de que seria uma heresia tentar descrever algo tão etéreo... As lágrimas, felicidade, tristeza, sustos, arrepios, sorrisos e a infinidade de sentimentos despertados parecem indescritíveis diante de tantos filmes que para sempre parecerão eternos (sim, com direito ao pleonasmo).
Se a emoção que se sente ao ver um filme já parece inexplicável, o que dizer dos próprios filmes, então? E se a história já foi contada, por que repeti-la, então? Muitos já falaram disso... eu não ouso acrescentar mais nada. É que falar de filmes às vezes pode ser tão bom quanto assistir a eles. Porque quem ama o cinema sabe que ele está em tudo e pode-se ver cinema, ler cinema, sentir cinema, respirar cinema, transpirar cinema e até ser cinema.
Eu sei que eu concordo quando Humberto Mauro diz que cinema é cachoeira, em todos os sentidos. É cachoeira que invade, destrói barreiras, inunda e transborda, seja com imagens ou palavras.

[1] Top Hat (1935, Mark Sandrich) [2] Pierrot, Le fou (1965, Jean Luc Godard) [3] Breakfast at Tiffany´s (1961, Blake Edwards) [4] La maman et la putain (1973, Jean Eustache) [5] La Strada (1954, Federico Fellini) [6] Casablanca (1942, Michael Curtiz) [7] La dolce vita (1960, Federico Fellini) [8] Lady Chatterley (2006, Pascale Ferran) [9] Before Sunset (2004, Richard Linklater)[10] À bout de souffle (1960, Jean-Luc Godard)

3 comentários:

Marcelo Grillo disse...

As paixões não se explicam. Elas surgem com a gente e nos acompanham a vida inteira. Por isso devemos cuidar delas com carinho. E não deixar que ninguém enterfira nelas. Beijo.

Fernanda Barata disse...

É uma pena que eu não saiba seu nome, mas te encontrei no blog do Marcelo e resolvi visitar. Você não é a única a se sentir atraída por um papel em branco. Por várias vezes me pego sentada com as folhas em branco no colo sem conseguir escrever uma letrinha sequer - sem assunto. Mas não importa... Aceito a boa companhia que as folhinhas virgens me fazem. E tenho certeza de que você consegue transcrever o que sente pelo cinema - ainda mais se for uma paixão "daquelas". Parabéns, moça.

Renata Mofatti disse...

Parabéns, Marianne!!! Acabei de ler essa crônica tb no jornal A Folha do Caparaó... Sofro da incrível doença-quase-saudável de ler uma mesma coisa várias vezes (qd gosto, é claro!) e li sua crônica por diversas vezes e mesmo desconhecendo algumas cenas citadas pude imaginá-las, o que me causou verdadeira viagem no enredo da paisagem... Perfeita a comparação: "é como se o papel em branco fosse uma tela e minha mente o projetor".

Um grande abraço!